Malach e o rosto do esquecimento
Criar um antagonista costuma começar por uma pergunta simples: contra quem o protagonista irá lutar?
Com O Portador da Memória, a pergunta foi outra.
O que acontece quando alguém permanece tanto tempo no esquecimento que já não consegue lembrar quem é?
Foi dessa inquietação que nasceu Malach.
Desde o início, eu não queria escrever um personagem cuja maldade existisse apenas para mover a história. Antagonistas que são maus porque "precisam ser maus" raramente permanecem na memória do leitor. Eles podem provocar medo, mas dificilmente despertam reflexão.
Malach nasceu de uma ideia diferente: a de que o esquecimento não destrói apenas lembranças. Ele corrói identidades. Rompe vínculos. Silencia nomes. Aos poucos, transforma pessoas em sombras de si mesmas.
Por isso, mais do que representar o mal, Malach representa aquilo que pode acontecer quando a dor deixa de encontrar palavras e quando ninguém permanece para recordar quem fomos.
Essa visão também influenciou a construção do universo da obra. Na Floresta Oblivionis, o esquecimento não é apenas um fenômeno da mente. Ele assume forma, ocupa espaço, altera a paisagem e tenta convencer cada personagem de que sua história já não importa.
Era importante que o principal antagonista pertencesse a esse mesmo princípio.
Ao longo da escrita, descobri que um bom antagonista não existe apenas para impedir o herói de avançar. Ele existe para colocar em dúvida as verdades que sustentam o protagonista. Em O Portador da Memória, a grande pergunta nunca foi apenas "quem vencerá a batalha?", mas sim: o que acontece quando deixamos de reconhecer o valor do outro?
Essa pergunta atravessa toda a narrativa.
Por isso, Malach nunca foi concebido apenas como um inimigo. Ele é um espelho deformado daquilo que o esquecimento pode produzir quando encontra espaço para crescer.
Talvez seja essa a razão de eu acreditar que as histórias mais marcantes não são aquelas que apresentam vilões invencíveis, mas aquelas que nos fazem perceber que a maior batalha acontece antes de qualquer confronto: ela começa quando decidimos se continuaremos ou não a lembrar.
No universo de O Portador da Memória, lembrar nunca foi um simples exercício da memória. É um gesto de reconhecimento. É afirmar que uma vida continua tendo valor. É resistir à ideia de que alguém possa ser reduzido ao silêncio.
E talvez seja justamente por isso que Malach exista.
Não para nos ensinar a temer a escuridão, mas para nos recordar do preço que pagamos quando deixamos de enxergar o outro.